Todo ano, no verão, Carlos ia para a mesma praia. Ficava no Estado vizinho, onde tem algumas das praias mais lindas. Escolheu um lugar menos movimentado, preferia uma praia pacata durante o dia, mas que ficava perto das agitadas, para quando saísse à noite.
Uma vez ou outra, ele passava por uns apuros, até mesmo pelas diferenças de um Estado para o outro. Como uma vez em que ele foi a uma pizzaria e pediu uma Calabresa. O garçom lhe trouxe a linguiça. Ele estava em uma pizzaria, pensou que, ao dizer que queria uma Calabresa, o garçom lhe traria uma Pizza de Calabresa.
Era uma tarde de quarta-feira, em fevereiro, quando ele teve que ir ao supermercado da esquina, faltava pão e leite para o café da manhã do dia seguinte. Carlos detestava fazer mercado, mas teve que ir. Na saída, ao analisar qual caixa tinha a menor fila, notou uma linda moça, como funcionária do caixa do supermercado. Nem se importou daquela fila ser a mais longa, ela era muito bonita. Quando chegou a vez dele, trocou poucas palavras com ela, e não conseguiu descobrir o seu nome, pois o crachá estava virado.
Voltou no dia seguinte, desta vez, comprou umas cervejas e uns petiscos. Puxou conversa sobre o tempo, elogiou-lhe as sobrancelhas e quis saber mais sobre quanto tempo ela trabalhava lá, e etc. e tal. Ela, muito sorridente e simpática, lhe deu todas as informações. Sentindo-se mais íntimo, perguntou-lhe o nome. Foi quando ela lhe respondeu, com o sorriso mais sincero que ele já recebeu: - Meu nome é Frígida! Carlos, como quem não tivesse entendido direito, pediu-lhe para repetir.
– Frígida, meu nome é Frígida!, disse ela, feliz, mostrando-lhe o crachá.
– Que nome diferente tu tens: Frígida, disse ele, com voz de quem estava tentando entender o porquê daquele nome.
Soava estranho ele chamar, com um qualitativo tão apático como frígida, uma moça tão bonita. E ela ainda completou que adorava o nome.
- É mesmo?, ele replicou, imaginando se não teria sido ideia do pai dela, frustrado, ter lhe dado aquele nome tão... tão... sem VIDA! Teria se inspirado na mãe da menina?
Mórbido é a palavra certa para definir aquele nome que chocava tanto. Não era um nome que passasse despercebido, incólume de comentários. E ela disse que adorava o nome... Será que sabe o seu real significado?, insistia seu pensamento. Diversas indagações lhe passavam pela mente naquele momento. Todavia não quis lhe perguntar o porquê, afinal mal a conhecia.
O fato é que Carlos não foi mais ao caixa de Frígida. É como se o nome afetasse o que ela era. Tem certas coisas que transmitem uma energia mais forte que a pessoa, e a apagam. Talvez ela não tivesse a ver com o nome, que carregaria para toda a vida, caso não quisesse trocá-lo. Entretanto, indiretamente, ela estava contaminada pelo seu significado.
Preconceito de Carlos, talvez. Mas nenhum encanto sobrevive a uma... Frígida!

