Curtas insanos: a janela indiscreta

Carlos adorava observar as pessoas pela janela do seu apartamento, no décimo primeiro andar. Tinha comprado até um binóculo. Morar em apartamento é como uma gaiola, pois não tem um pátio para entreter. Só tem a janela ou a sacada. No caso de Carlos, não havia sacada, mas este hábito de observar as pessoas como se fosse um voyer poderia ser encarado como uma indiscrição sadia, pois ele já tinha ajudado diversas pessoas, graças à janela.
Um dia de tempo chuvoso, ao observar a vizinha cortar a grama, lembrou-se de uma reportagem que tinha lido, sobre um homem que morreu eletrocutado ao cortar a grama em dia de chuva, gritou-lhe da janela, desesperado, já imaginando-a morta e estirada na grama. Ela, rindo com a situação, estranhou ver aquele homem naquela janela do prédio que ficava aos fundos da casa dela, gritando, e o avisou que já terminaria o serviço. Outra vez, observando a casa de outra vizinha, Carlos percebeu que dois filhotes de cachorro tinham caído na piscina, e a cadela-mãe andava aflita ao redor, sem ter como salvá-los. Carlos ligou para a vizinha, sem se identificar – para não pensarem que ele era um doido observador – e lhe disse para ir até a piscina, porque seus cachorrinhos estavam se afogando. Ela pensou que fosse trote, mas ele insistiu tanto que ela foi ver se era verdade. Ao perceber que realmente os filhotes estavam se afogando, pulou na piscina e levantou-os com os braços, mostrando-os para o nada, pois não sabia onde estava o homem que a tinha alertado.
No edifício ao lado da vizinha dos cachorrinhos, morava Ângela. Todos os dias ela ia para a sacada aguar as plantas. Carlos a achava linda, Ângela era daquelas mulheres com estilo próprio, originais no vestir e no comportamento. Naquele dia, Carlos não aguentou e foi procurar na lista telefônica, a que classifica por endereços, o número dela. Encontrou a rua e o número do edifício, faltava descobrir o número do apartamento. Na terceira tentativa, após alguns enganos, o telefone chamou e Ângela, que estava aguando as plantas, foi atendê-lo. “É ela, e se chama Ângela!”, pensou ele. Carlos confessou que sempre a olhava pela janela, a achava uma mulher interessante e gostaria de conhecê-la. Ângela se interessou e marcou um encontro no apartamento dela, em determinada hora, pois o namorado não poderia estar em casa. Carlos suou frio e, nervoso, aceitou o convite.
Era final de tarde, ela morava em um edifício pequeno, três andares e sem elevador, em uma das coberturas. Carlos subiu às escadas e quando chegou lá, estranhou ver a porta entreaberta. Cauteloso, abriu-a com cuidado e se deparou com Ângela deitada em um divã, vestida com um quimono e uma faixa nos cabelos, fumava um cigarro com uma piteira e havia cheiro de incenso no ar. O clima era de mistério. “Sente-se”, ela disse. Carlos, meio sem jeito, sentou-se em uma poltrona próxima. Ela lhe ofereceu um chá, que ele recusou. “Sabe-se lá o que tinha dentro daquele chá”, lembra. Era tudo muito estranho, parecia cena de filme. Conversaram pouco. Carlos deu uma desculpa e foi embora, antes que o namorado dela chegasse e algo mais estranho acontecesse. Tinha encontrado uma mais doida que ele.
Meses depois ele mudou de apartamento e de bairro, não sei se continua com o velho hábito de observar pela janela, mas ele sempre se lembra de Ângela, a mulher que conseguiu intimidá-lo. Nunca mais a tinha visto e, dez anos depois do acontecido, ligou para ela, mas outra mulher atendeu ao telefonema. “Ângela saiu, mas se quiser deixar recado…”, falou a mulher. “Diga a ela que o Carlos ligou”, respondeu ele, aliviado. Ele sabia que ela não se lembraria dele, só com este recado, já tinha se passado muito tempo. Mas a curiosidade a respeito dela ainda o assombra.

10 comentários:

Xandy Britto disse...

Caro escritor,

tenho a honra de dizer que lancei o selo do "Psicopata Poético". O que isso quer dizer? Simples, quer dizer que você é especial para mim e é só passar no meu blog, copiar o selo e colocá-lo no seu blog. Com ele vai meu carinho, respeito, e toda admiração.

Que este selo nos remeta sempre a nossa amizade, admiração, carinho e respeito conosco e com a arte. Que ele sempre lhe fale: "Ei, eu sou teu fã e tô aqui te corujando!"

Grande abraço!

Xandy Britto

Juan Trasmonte disse...

Dani, eu me confesso um voyeur total. Alias, vivemos na fase que os sociólogos chamam de "homo-videns", a sociedade visual.
Mas o olhar no meu caso é um estímulo da imaginação. Prefiro inventar uma história do que conhecê-la.
Fora isso, bonito viés dessa realidade você achou no seu conto.
beijos

JIME disse...

Confesso que não tenho essa curiosidade de ficar olhando a vizinhança.
Beijos.

ju disse...

Oi, Dani!

Uia! Que legal esse post! Sou meio zoiuda também... E embora nunca tenha passado por uma situação semelhante a do Carlos, acho que me identifico um pouquinho com ele...

Bjs, querida, e inté!

Xandy Britto disse...

Opa!

Ganhei uma CHUVA DE SELOS da Luka FREE, putz, to feliz pacas e ela me mandou encaminhar pros blogs dos meus amigos, que amo mesmo, e você está nessa lista!

Passa lá e pega! É um montão de selos, um montão de beijos, abraços com a seguinte frase:

"SEGUE EM FRENTE! TE ADMIRO PRA CACETE! ESTAMOS JUNTOS NESSA!"

Xandy Britto

MAURICIO FERRAZ disse...

DANI, Tem um presentinho para voce no meu blog pega lá:http://greenoport.blogspot.com/2009/04/seloolha-que-blog-maneiro-recebi-de.html

um beijo
mauricio ferraz

Alexandre Forato disse...

Acho que a curiosidade de Carlos acabou se transformando em paixão (platonica), mas é um tipo de paixão. Alguém do nada ligar dez anos dps pra uma pessoa que viu apenas uma vez na vida. não tem outra explicação.

Juan Trasmonte disse...

Dani, cadê vc? Saudades dos teus textos (olha o nível de reclamação rsss)
beijos

blogdocatarino.com disse...

Muito bom este conto, as pessoas costumam ter muita curiosidade com o que os outros fazem.

Daniel Savio disse...

Aff, qual dois desta trama você é?

hua, kkk, ha, ha, brincadeira com um fundo de curiosidade...

Fique com Deus, menina Daniela.
Um abraço.