Perfeitas para casar

bem-me-querCarina adorava uma festa, raramente ficava em casa nos finais de semana e feriados. Tinha uma turma grande de amigos, nunca estava sozinha. Eram daqueles amigos companheiros, da época da faculdade.
Ela queria muito se casar. O tempo estava passando e continuava solteira. Já tivera muitos namorados, todos bem sucedidos e inteligentes. Estava com 24 anos e o desejo de ser mãe aflorou como nunca, só faltava o marido. Não queria ser mãe solteira. Foi quando Reginaldo apareceu. Moço de família tradicional, bonito, inteligente e estável financeiramente, se encantou por ela.
Começou o namoro e Carina mudou com os amigos. Estava sempre ausente e, até mesmo na faculdade, evitava-os. Dizia que Reginaldo sentia ciúmes dos amigos dela. Nada podia estragar o novo namoro, e ela seguia todas as regras que achava recomendáveis para manter o relacionamento. Ela cuidava de Reginaldo como se fosse uma esposa dos sonhos: cozinhava, costurava os botões que estavam frouxos nas camisas dele e etc. e tal. Ele sempre a buscava na faculdade e, quando aparecia, Carina fazia questão de esperá-lo sozinha, longe das amigas. Ela se afastou de todos, e passou a andar somente com o namorado e a turma de amigos dele. Carina engravidou e se casou. Não convidou a melhor amiga para o casamento, disse que estava tão atarefada com os preparativos que esqueceu. A amiga ficou tão magoada que se afastou de vez. Aos poucos, Carina foi perdendo todos os amigos. Hoje, quando está triste, ela sente falta deles, e se pergunta “por que eles se afastaram?”, sem ao menos se dar conta que quem os afastou foi ela mesma. Continua casada. E o casamento? Vai bem, obrigada.
mal-me-quer Luiza, uma senhora com muitos anos a mais que Carina, avó de quatro netos, dedicou sua vida a Osmar. Quem olha diz: Que lindo casal, juntos há tanto tempo! Mas a rotina é cruel, e alguns casamentos duram para sempre por não ter outra opção. Luiza é dependente emocional do marido. Reclama que ele se isola na biblioteca da casa e não conversa com ela. Eles não têm assunto. Luiza se culpa por não ter estudado, se tivesse, teria o que conversar com ele. O pai dela, na época em que estava em idade escolar, dizia que bastava ela saber fazer contas, no demais, estudo para quê? Mas ele também era uma pessoa sem estudo e, naquela época, eram raras as mulheres que trabalhavam. As filhas que teve com Osmar tentaram convencê-la a estudar, elas mesmas a ensinariam. Mas Luiza ficava brava, como dizia o pai, estudo para quê? O marido estava ali, presente. Gostava dela, mostrava desejo. Isso era o importante.
Luiza se dedicava mais a ele do que aos filhos. Era o amor da vida dela, apesar de sair com outras. Mesmo procurando outras mulheres, era com ela que ele estava oficialmente. Ela o mimava, cortava-lhe, inclusive, as unhas. O tempo passou, Luiza envelheceu e Osmar também. Sexo já não existia mais entre os dois, natural, pela idade, mas ela sentia falta, embora sem a mesma freqüência de quando jovem. O corpo envelheceu, mas a mente não. Velho também sente desejos, ignorância de quem pensa que tudo termina com o passar dos anos. Ele não a procurava mais e ela sabia que ele tinha outra mulher, apesar de velho. E não era uma mulher jovem, tinha apenas alguns anos a menos que ela. Para Luiza, a certeza que Osmar a amava, era o desejo. Se este acabou, o amor se foi.
Duas histórias de mulheres que viveram em gerações diferentes, mas com uma característica semelhante: viver em função do outro. É válido? Amor é doação, mas até que ponto? Abdicar da individualidade pode ter um preço muito alto com o passar do tempo. Deixar de viver o seu momento, em razão do parceiro, que muitas vezes nem pediu por isso.
É natural se afastar um pouco dos amigos quando se começa um namoro, mas normalmente acontece aos poucos. As afinidades mudam e os programas da vida de solteira já não são tão agradáveis assim, turmas diferentes, universos diferentes. O desejo de ter um companheiro e o medo de que não dê certo faz algumas mulheres se isolarem e viverem somente para ele. E quando este relacionamento termina? Com quem ficam os amigos e com quem se pode contar?
Elas tornam-se as mulheres perfeitas, que não oferecem nenhum risco ao namorado. Oferecem segurança. E adoram serem controladas pelos parceiros. Para elas, isso é sinal de que ele as ama. Mesmo na empolgação da paixão, de querer viver todos os momentos com (e para) o companheiro, não se pode deixar de lado a importância da individualidade, o quanto as próprias experiências são importantes. Fazer o que gosta e viver a própria vida. Este é o segredo de um relacionamento sadio e sem perigo de cobranças futuras. Ninguém tem que ser o responsável pela felicidade do outro, e tanta dedicação não é garantia de se obter um amor para toda a vida. Ceder em algumas coisas é necessário; mas anular-se, nunca.
margarida-2098
Apagar-me,
diluir-me,
desmanchar-me.
Até que depois
de mim,
de nós,
de tudo,
não reste mais
que o charme
.”

(Leminski)


12 insanidades:

Blue disse...

Faz pensar este bom texto,
no início do namoro e casamento, como tudo na vida,
é tudo as mil maravilhas,
até mesmo acha-se normal,
afastar-se dos amigos.
Mas o tempo é cruel...

Beijos

Alessandra Prado disse...

Verdade. Temos de fazer nossa vida e tentar compartilha-la com o outro e não viver em função do outro.

Luciana disse...

Dani, eu pensei em colar o meu comentário lá do Panela pra colocar aqui, mas achei meio mau. Ultimamente não ando com paciência com algumas pessoas que andam fazendo isso: copiam e colam o mesmo comentário em todos os blogs. É horrível receber um comentários desses. Pior são aqueles que colocam a estrofe de uma poesia qualquer, nada a ver com o texto. Tenho recebido muito disso no Afrodite.
Fica visível que a pessoa nem leu.
Então, vou comentar a música que é linda e se adapta perfeitamente ao seu texto e a poesia (que eu não conhecia) e caiu como uma luva ao tema.
Talvez esse seu texto faça muita gente pensar no quanto está sendo "nulo" na vida.
Beijos!
Lu

Maria disse...

Oi Dani

É mais fácil arranjar namorado do que verdadeiros amigos, Tenho poucos amigos, mas sei que posso confiar neles. Para um relacionamento dar certo é necessário que cada um mantenha sua individualidade, não suporto relacionamento "carrapato" e desconfio dos ciumentos demais para mim eles estão tendando esconder alguma coisa errada...
Adorei o texto.
Ah, achei muito massa vc ter se matriculado no cursinho, e sobre a festa... participa rsss acho que vc vai se divertir...
E sobre o pessoal lá da secretaria dá vontade de mandar e a catar coquinhos né... aff (como diz aqui na Bahia).
Ainda ando com o tempo voltado pros estudados, é minha meta esse ano, fiz o 1º dos 3 concursos que vou fazer... fui mais ou menos... mas não vai dá para entrar, a qtde de vagas eram poucas... Mas foi bom pois pude analisar meus ptos fracos e tô dando mais atenção (Além disso sou brasileira e não desisto nunca rsss).
O blog tá lá "jogado as moscas"... vou tentar postar pelo menos uma vez por mês...

Humm esse coment ficou parecendo mais uma carta...

É isso

Abraços

ju disse...

Amor que é amor deixa o outro respirar. Do contrário, mais cedo ou mais tarde, vai virar uma obrigação, uma chatice, uma patologia. Cobranças sufocam.

Bjs, amiga, e inté!

DIOGO disse...

Só mulher comenta esse post?? Tanto o homem quanto a mulher pode cometer esse tipo de erro, de anular-se em função do marido/esposa. Mas uma coisa é certa: sempre um se dedica mais que o outro. Se esperarmos sempre algo em troca...sabe como é neh...

PAULO MIRANDA (A Folha) disse...

Anular-se... Isto é um jogo perigoso. Na verdade, ninguém é responsável pela felicidade de alguém.
Pensar que o outro vai suprir todas as suas necessidades, é o maior engano que o ser humano tem em relação a felicidade.

Rodrigo disse...

caros colegas!! ninguem vai ser feliz se não se encontrar consigo mesmo, o amor não é egoista, não é ciumento, não enraivece, ele tudo suporta, tudo tolera...agora isso custa muitas dores pra se atingir...Quem ama se doa sem se importar se vai receber, inclusive "é dando que se recebe", quando agente acha q esta dificil, basta lembrar de jesus, os frutos dessa tolerancia são nobres e só vai alcansa-los quem suportar, conforme esta escrito em eclo 2 na biblia sagrada...leiam !! vale a pena!!! melhor se por em pratica, afinal fomos feitos por amor e para o amor, não podemos ser individualistas, relacionamentos são feitos por duas pessoas diferentes que se completam...grd abrç

Freddie Diniz disse...

Ótimo post
tá de parabéns ^^

Rachel disse...

Esse texto me fez lembrar de uma pessoa... Eu. A mais animada, cheia de amigos, não passava um final de semana sozinha, amava viajar, conhecer pessoas, divertir-se. Nunca com o interesse de achar aquele gato, pois tinha a certeza que no tempo certo ele chegaria. O conheci, me apaixonei, me decepcionei, mas, continuei. Na época porque amava. E hj? Cade aquele intusiasmo, diversão, novidade??? Não existem mais, apenas um namoro que não sei mais quem sou. Culpa dele? De forma nenhuma, pois foi eu quem me anulei.



MUito obrigada por esse texto e mais ainda pela música!

Daniela Figueiredo disse...

Blue, lindo poema! O tempo é cruel mesmo, nada escapa dele!

Alessandra, esta é a melhor maneira, compartilhar e não anular-se.

Lu, Chico é realmente maravilhoso. E quem um dia não quis ficar eterno no outro, como uma tatuagem? Na pele, na mente... Mas lado a lado, não se anulando.

Maria, é verdade, tudo o que é demais enche (e o que é de menos também), nisso o ciúme mostra. Quando é em excesso, quer anular o outro para que ele viva só para si. Quando não se tem ciúmes, nos questionamos sobre a nossa importância na vida do outro. Como se ele fosse indicativo de que somos amadas. E quando digo que somos todas insanas, alguns riem... Mas é verdade.

Ju, vira cobrança mesmo! E nada mais chato que ficar discutindo a relação todo o tempo.

Diogo, falei no feminino porque falo por mim. Mas também tem os homens que se anulam e se dedicam mais que a parceira. Sempre terá um insatisfeito quando isso acontece. Repito, tudo em excesso é ruim, até amor demais.

Paulo, é verdade. Somos nós mesmos responsáveis pelo que acontece conosco, e isso é o mais difícil de admitir quando alguma coisa dá errada. Foi que permitimos certas coisas, agimos de forma que o imprevisto e não legal acontecesse. Mas faz parte, vivendo e aprendendo.

Rodrigo, quando amamos nem nos importamos em receber, falaste bem. Queremos é amar, cuidar do outro é um prazer, é um querer bem. Mas quando isso se torna exagerado, a ponto de abdicar de muitas coisas só para viver em função do parceiro, é que se torna um problema. O tempo passa, o outro começa a sentir que não consegue retribuir da mesma maneira, quem está do outro lado acha que não está recebendo conforme dá, e então... Deus nos acuda! Os relacionamentos não são complicados, a gente é que complica tudo.

Freddie, obrigada!

Rachel, obrigada pelo teu comentário. Eu também já me anulei em um relacionamento. Não cheguei a me afastar das minhas amigas, mas deixei de sair e só andava na companhia do namorado. O namoro acabou e a lembrança que tive, logo que terminamos, não foi de boas recordações, foi uma espécie de perda de tempo e raiva de mim por ter me comportado daquele jeito, sem individualidade. A relação foi válida, apesar dos pesares. É assim que amadurecemos. Não aconselho a ninguém viver em função do outro. Somos bem mais interessantes sendo nós mesmos.

Beijos a todos e obrigada pelos comentários!

Daniel Savio disse...

Acho que nenhum dois dois devam se anularem, pois os amigos são parte do outro...

Pois vai que não dá certo, vai se perder tudo (amigos e amor)?!

Fique com Deus, menina Daniela.
Um abraço.