Senhora!

Senhora! Palavrinha que soa esquisito ouvir pela primeira vez, de forma constante. Tudo bem, isso faz parte da boa educação, tratar as mulheres acima de 30 anos de Senhora, mas podes acreditar que não é nada agradável ser chamada como tal.
senhora Em visita ao blog Coisas de Maria , percebi que não sou a única incomodada com a palavra, e amei a resposta da Maria ao ter sido chamada de Senhora pela primeira vez: “E quer saber, Senhora é um livro de José de Alencar”, disse ela. Autor que não aprecio nem um pouco, por sinal, e que chegou a escrever uma obra com o título maldito. Fugindo um pouquinho do tema, a minha implicância com José de Alencar vem de O Guarani, quando fui obrigada a lê-lo, para uma Ficha de Leitura, no Ensino Médio (nem sei se elas – as Fichas – ainda existem):
“- Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciência, se eu te pedisse aquela nuvem?... E apontou para os brancos vapores que passavam ainda envolvidos nas sombras pálidas da noite.
- Peri ia buscar.
- A nuvem? perguntou a moça admirada.
- Sim, a nuvem.
Cecília pensou que o índio tinha perdido a cabeça; ele continuou: - Somente como a nuvem não é da terra e o homem não pode tocá-la, Peri morria e ia pedir ao Senhor do céu a nuvem para dar a Ceci.”
Nuvem? O que ela faria com uma nuvem? Presente de pobre, que não precisa gastar para agradar. Pode até parecer romântico, mas não tenho a mínima paciência para romances açucarados. Aliás, doce demais me repugna. Gosto de ser bem tratada, mas sem exageros. Detalhe: Ceci estava com um assomo de impaciência, ou seja, nem ela aguentava o romantismo excessivo do índio.
Voltando ao livro Senhora, ele tem uma sinopse bem interessante, que lembra-nos muito os romances de Sabrina e Júlia, ou de Bárbara Cartland, que toda adolescente sonhadora adora ler: uma menina pobre, rejeitada pelo pretendente que queria uma posição social melhor, recebe uma herança milionária e negocia seu casamento com o dito-cujo que a rejeitou. E se vinga ao casar-se com ele, deixando bem claro que... O comprou. Não li Senhora, mas deve ser bem mais interessante que O Guarani (fiquei traumatizada com o livro). Contudo, mesmo a sinopse tendo despertado o meu interesse, ao pensar que lerei, pelo menos, três páginas descrevendo o vestido da tal Senhora, que certamente ele descreverá, perco a motivação de saber mais sobre ela. José de Alencar era muito detalhista, coisa que não sou.
A primeira vez que me senti incomodada ao ouvir ser chamada por Senhora! foi há pouco tempo, no cursinho pré-vestibular que me inscrevi. Ao procurar saber do curso, antes de fazer a matrícula, fui muito bem recebida por um rapaz supersimpático, que demonstrou ficar espantado ao saber que eu estava há 18 anos sem ver matéria do Ensino Médio. Todavia, ao fazer a matrícula, fui encaminhada às funcionárias (ou estagiárias) que, de forma educada e insistente, me chamavam de Senhora!
- A Senhora é a responsável financeiramente pela sua matrícula? (Com ar de espanto. Puxa, são raras as mulheres que pagam seus próprios cursos?)
- Qual a forma de pagamento que a Senhora prefere?
- Ao se matricular nos nossos cursos, a Senhora terá direito a atividades extraclasses de História e Geografia, como palestras sobre atualidades com professores da UFRGS e, também, ao Sarau Literário, onde nossos professores dissertarão sobre as Leituras Obrigatórias.
- A Senhora também poderá participar da Festa das Tintas, onde haverá um show de rock em que os alunos se pintam com tintas e se divertem bastante.
Confesso que, ouvir ser chamada de Senhora tantas vezes, fez com que eu me sentisse uma velha ao me imaginar, esmagada e enlouquecida, pulando no meio de tantos adolescentes, suados e eufóricos. Imaginei, também, a banda que estaria tocando: Cachorro Grande, da minha época, claro. Amo rock gaúcho! A música em que eu me esguelaria cantando, baladinha de rock que amo de paixão?






Começaram as aulas, e nem todos eram adolescentes, mas a maioria é uns 10 anos mais nova do que eu, a traumatizada com tantos Senhora! Foi quando, na aula de Inglês, entrou um carinha de barba. Legal, alguém da minha idade! Era o professor. Tudo bem, sem falar que um dos professores de Física que tenho é bem mais moço que eu. Eis os efeitos colaterais de ser chamada de Senhora! por tantas vezes, em um curto espaço de tempo.
Agora, já não me sinto a “velha” da turma, pois já passei para o Intensivo e apareceram pessoas da minha idade (acho que são da mesma idade que eu, se não, são um pouco judiadas). Fiz algumas amizades com colegas que me lembram como eu era quando fiz meu primeiro vestibular. Escolhi o curso que queria: Direito, e mais duas opções: Administração e Contábeis. Quem escolhe tanto, não sabe o que quer. Enfim, eu acabei me formando em Administração, curso que não tem nada a ver comigo.
Como nem tudo são flores, o lado ruim de ter passado dos 30 é ser chamada de Senhora! Mas isso a gente tira de letra: ou se acostuma, ou passa a conviver somente com pessoas que não nos chamam assim porque sabem o real significado da palavra Senhora: alguém que se acomodou por achar que já viveu tudo o que acha que teria direito de ter vivido. Ser chamada de Senhora!, ninguém merece!
rosa-verme

8 insanidades:

Blue disse...

Senhora, Senhor!

É um tanto incômodo no início, com certeza. Mas vive-se e fica-se com mais experiência, para não dizer...... mais idade!

E o pior, talvez para o homem, é ser chamado de tio.... por uma linda menina... hehehhe. Claro que faz a gente se lembrar daquela propaganda, se não me engano, da fanta laranja. Mas que é uma sensação ruim, isso é!

Por outro lado, sempre agradeço, pois muitos não chegam nesta idade, o que é muito, mas muito pior, não é!

Beijos

Daniela Figueiredo disse...

É verdade, Blue. Pior é nunca ter a oportunidade de ser chamado de Senhor(a) porque morreu antes.
É uma sensação estranha ouvir, como se não fosse comigo, pois não assimilei ainda que agora sou uma Senhora! Hahaha.
Beijos pra ti.

Simplesmente Ariana disse...

Dani, não me acostumei até hoje com essa história de Senhora. É simplesmente irritante ser chamada tantas vezes por um nome que causa desconforto.
A verdade é que a nossa cabeça é a mesma de anos atrás, a vontade, a energia, a empolgação e o gosto por rock, por exemplo, também continua sendo o mesmo. Acontece que a mudança física nos torna seres estranhos aos mais jovens. Parece que nos devem um respeito que não pedimos.
Odeio ser chamada assim e quando dizem: -Como vai a senhora? Eu respondo: -A senhora eu não sei, mas eu vou bem!
Tenha a santa paciência!
Adorei o post!
Também não gosto de José de Alencar e nem de O Guarani!
Também dou ficha de leitura aos alunos!
Ninguém merece!
Beijos, Dani, adoro vir aqui!
Tenha uma ótima semana!

Afrodite disse...

Vale ressaltar alguns pontos:
- a questão de o carinha de barba ser o professor;
- o fato de um dos professores ser bem jovem;
- a escolha da música do Nando Reis ter caído como umaluva para o post;
- os argumentos para não gostar de ser chamada de "senhora".
Agora sim: Fecha a firma e passa a régua: o post está perfeito!

Beijos insanos para a semana!

Alterado disse...

Senhora e ainda gata !ops..

Em tudo na vida tem um lado bom , ser chamado de Senhor ou senhora , é sinal de que estamos amadurecendo,mesmo sendo estranho.

Acho que mais estranho é ser chamado de pai,certa vez no mercado uma bebe de 2 anos no colo da mãe me confundiu com o pai dela.Meu Deus !Ela berrava papai e mãe dizia , não é ele filha , a pobrezinha com a mãozinha estendida na minha direção !afff que dó

bjos

Daniela Figueiredo disse...

Ariana e Afrodite, adorei os comentários, obrigada! Tenho uma amiga que responde: Senhora está no céu! Não é nada agradável ouvir, mesmo! Quanto à ficha de leitura, o ideal seria a opção de escolha do aluno, dos males, o menor. Hehehe.

Obrigada, Ricardo!
É, ser chamado de pai, assim do nada, deve ser um susto! Olhaste bem a mãe da criança, para ver se não era conhecida? Sabe como é... hahaha. Beijos.

Juan Trasmonte disse...

Nossa senhora! E quando vem um adolescente e fala pra mim: "o senhor me diz as horas?" Eu quero matar o cidadão.
Dani, se o propósito do teu blog é revelar teu lado louco e infantil (é uma coisa assim que você escreveu no perfil, certo?), saiba que você está andando com passos firmes para essa descoberta.
beijos

Daniel Savio disse...

Hua, kkk, ha, ha, por um destas, que prefiro chamar as mulheres de senhoritas...

Mesmo casadas.

Fique com Deus, menina Daniela.
Um abraço.