Quando a razão é melhor para o coração.
Divagações de Daniela Figueiredo em Sábado, Setembro 12, 2009 Marcadores: autoestima, comportamento, relacionamentosMaria é casada com João há 30 anos. No começo, tudo era maravilhoso, como quase todos os casamentos. Um apaixonado pelo outro, sonhos em comum, planos de progredirem juntos, eram companheiros. Tiveram um filho, Francisco, 25 anos e já “encaminhado na vida”. Hoje, Maria e João têm situação financeira estável e uma vida muito confortável. Ela não pode dizer que eles vivem brigando, embora uma rusguinha surja de vez em quando, mas aquela paixão que causava sensações de “borboletas no estômago” no começo da relação, não existe mais, transformou-se em amor, em companheirismo, quando se ama o outro com defeitos e tudo. Há um ano, Maria descobriu que João a trai com uma mulher vinte anos mais jovem que ela. Logo que soube, fez de conta que não sabia de nada, afinal, era com ela que ele passava as noites, as datas especiais e as viagens de férias. Pedir a separação seria o mesmo que desistir de tudo que conquistaram juntos, do casamento, das futuras experiências que ainda viveria com aquele homem tão importante para ela. A impressão que tinha, era que tudo foi em vão, que nada do que viveram tinha importância. A autoestima foi prejudicada, ela não se sentia mais aquela mulher desejável que tanto atraía o marido no começo da relação. Estaria ele tão insatisfeito? Logo ela, que nunca descuidou da aparência e tinha um corpo de dar inveja a muita menina! Aguentou firme aquela situação, até que, há quatro meses, Camila, a jovem amante de 27 anos, começou a incomodar. Mandava emails e cartas - uma continha um DVD com os melhores momentos dos dois – que Maria não teve coragem de assistir. Dissimular, fazendo de conta que tudo está perfeito é fácil, quando o que incomoda não aparece. “Longe dos olhos, longe do coração”, já dizia o sábio ditado. Maria disse a João que sabia de tudo. Ele chorou, dizendo que ela era a mulher da vida dele e a base de tudo. Sem ela, ele era ninguém. Maria sabia que os homens sempre choram nestas horas. “Lágrimas de crocodilo”, pensou. Tinha chegado o momento dela decidir eliminar tudo aquilo que a incomodava e era o seu principal tema de várias sessões no analista. Valeria à pena continuar com aquele faz de conta?
Lúcia sempre sonhou com o alguém especial, embora nem sempre (ou quase sempre?), atraísse um homem que preste, como dizia a sua avó. Lúcia não era acomodada com ela mesma e nem com a vida, não era de ficar em casa esperando o futuro bater à porta. Festeira, saía sempre com os amigos. Nestas saídas, conhecia vários homens: solteiros, comprometidos, baixinhos, altos, intelectuais, burros, dos mais variados tipos... Todos eram temporários, nenhum permanecia. O penúltimo cara com quem tinha saído criticou-a por não ter lido Dotoiévski e preferir “leituras junk food” (como ele denominava os livros de autoras como Martha Medeiros e Helen Fielding, que toda mulher normal, realista e sonhadora ao mesmo tempo, adora). O Erudito, como ela o denominou, a fez se sentir o verdadeiro “Big Mac” após o encontro, embora ele e o sanduíche tivessem em comum o conservante como ingrediente mais ativo. Vá ser conservador assim longe dela! Lúcia gostava de clássicos, mas leitura leve também faz bem à alma. Traumatizada com os caras que costumava atrair, ela fugia para a internet, que a fazia fantasiar com relacionamentos virtuais e legais (porque no mundo virtual todos são queridos), e esquecer um pouco dos homens reais que a faziam se sentir para baixo. Sabia, mais que ninguém, que neste mundo virtual não se deve levar as coisas a sério, mas gostava de sonhar acordada. Costumava conversar com André, um cara que morava a 1.109 Km de distância. Gostava do papo, ele dava a atenção que toda mulher carente quer. Chamava-a de meu amor e, de vez em quando, de meu anjo. Apesar de tratá-la sempre com carinho, André nunca demonstrou curiosidade em conhecê-la, e dava em cima de várias mulheres na internet. Teve o dia em que ela resolveu ver o perfil dele no Facebook, e descobriu não ser o único anjo e, muito menos, o único meu amor. Aliás, algumas das amigas virtuais, ele chamava de “Gostosa!”, em incontroláveis rompantes hormonais, quando uma ou outra postava, em seu perfil no tal site, que foi picada por mosquitos tarados e ameaçadores ou estava sendo vista pelo vizinho lavando louça usando apenas lingerie. Isso o levava à loucura. André nunca a tinha chamado de “Gostosa!”. Pelo visto, Lúcia não agradava o suficiente nem pela internet. Ela estava desiludida. Se os mesmos erros estavam se repetindo constantemente, estava na hora dela mudar.
Duas mulheres, com vivências diferentes e algo em comum: a baixa autoestima. Por não se sentirem merecedoras de bons relacionamentos, mesmo que inconscientemente, se acostumaram a relações que as fazem se sentir para baixo, como se isso fosse o normal. Todas querem ser amadas e especiais. Algumas mulheres, como Lúcia, por quererem tanto, criam expectativas onde não há, e se assombram quando o homem que estão envolvidas se mostra diferente da fantasia criada por elas. “Um cafajeste!”, dizem algumas. E estes se defendem, dizendo que nunca enganaram ninguém. E têm razão. Eles dão os sinais e deixam claros os seus propósitos, a mulher é que se deixa enganar. Outras, como Maria, têm medo da mudança e do começar de novo. Preferem viver com o nó na garganta e o aperto no peito, pois refletem no que será da vida delas sem o marido. Conseguirão ser felizes sozinhas e contar com elas mesmas? Até que ponto essa dependência emocional afeta a vida delas?
A revista Women’s Health, de setembro de 2009, publicou a matéria Suba no Salto, que fala sobre a autoestima. Nesta reportagem, Juliana Diniz entrevista a terapeuta Lana Hanari, que explica esse envolvimento que mulheres com baixa autoestima têm em relação a homens que não as fazem se sentir especiais. “A relação é alimentada pela confirmação de sua inferioridade”, diz a matéria da revista, que também explica o porquê os homens que as fazem se sentir amadas não agradam, pois isso não é algo comum para elas. Se alguém gosta delas do jeito que são, é porque não é bom o suficiente. São mulheres que precisam de alguém que elas admiram para se gostarem. E só admiram quem elas acham superior a elas, então idolatram o outro, colocando-o em um pedestal. Ignoram que, para serem felizes, têm que se gostar primeiro. Sustentarem-se sozinhas, sem bengalas, para se manterem em pé. Não usar o outro para aumentar a autoestima, este tem que ser visto como um companheiro do mesmo peso, para não haver desequilíbrio na balança. E por se sentirem inferiores, atraem homens iguais a elas, que nunca as acham suficientemente boas para eles, pois a baixa autoestima afeta também alguns homens, que tentam contornar este problema de maneira bem parecida, ao esperarem encontrar a mulher perfeita para exibirem aos amigos, e causar inveja a outros homens.
O exercício da boa autoestima é diário. E não é fácil. A razão diz para não seguir o coração e não criar expectativas. Deixar a vida correr o seu rumo. Sem se limitar, sem fechar caminhos. Mudar o foco, pensar mais em si mesma e não no outro. Quando alguém se propõe a se cuidar melhor, como realmente merece, atrai coisas boas porque amplia a visão sobre os fatos. Novas oportunidades aparecem e nota-se que a vida não é apenas aquele mundinho criado na mente. Não olhar sempre na mesma direção e, sim, abrir janelas, permitir-se. O mundo é amplo, e viver o que a vida oferece de bom, sem medos, é o segredo da felicidade.
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12 comentários:
Olá Daniela,
vim retribuir a visita ao ZiunaNet :)
Parabéns pelos textos, são muito bons... mas você já deve estar acostumada a este tipo de comentário, né?!
Bom, gostei da visita e pretendo voltar.
Abraço!
Ulires, obrigada! Tu és vidente? Visitei e não deixei comentário lá! Bem que eu achei que este teu visual de Dalai Lama tropical não era à toa, tu tens superpoderes! Achei muito divertido e criativo o teu blog, e adorei o layout. Também pretendo voltar lá.
Beijos e sejas bem-vindo!
hahahahaa... não é isso!
é que você devia estar logado no blogblogs quando visitou o ZiunaNet, e se você der uma olhada na coluna da direita vai ver um widget lá com as carinhas dos visitantes recentes ;)
volte sempre!
Eu me dei conta depois, quando vi minha cara estampada no teu blog! hahaha. Sou meio "loira", não repare. Beijos.
Concordo com o seu texto, Dani. Ótimo, aliás, pra se fazer uma reflaxão dos dois lados da realidade... uma mulher caada e infeliz e Lúcia, que de certa maneira, tenta ser feliz a seu modo.
As mulheres têm mesmo essa mania de se esconder atrás de um homem por questão de comodismo. Confesso que não sei se é por admiração àquele com convive, talvez por falta de força pra lutar. Covardia, eu diria, rsrsrs.
Adorei aos dois extremos da sua crônica, com um ótimo tempero no final...
Beijos e uma ótima semana pra você.
Obrigada, Lu! Cada um encara a baixa autoestima a seu modo, e esta afeta a todos, casados ou não. O difícil é saber lidar com ela, sair dela. Um convite a refletir por que, às vezes, é tão difícil nos admirarmos por completo. Nunca estamos contentes com o todo. Acho que só estaremos, se nos acomodarmos. O que é ruim também... Bom vou parar por aqui, senão o Tico e o Teco, meus neurônios, entram em conflito e estou sem grana para o analista. Hahaha.
Beijos.
Oi, Dani, as pessoas se acostumam à uma situação e não conseguem mudar. E o problema é só esse...
Quantos casamentos são levados de qualquer jeito, já sem amor, sem companheirismo, sem nada além do comodismo, do medo de mudar. A pessoa até acha que merece algo melhor, mas assim está bom, ao menos permanecer daquela maneira é mais fácil.
Ou a profissão: a pessoa já nem suporta mais o seu trabalho, mas não aceita mudar, pensa que começar "do zero" é muito penoso.
Por isso acho que a gente não pode se acostumar nunca, se você se sente bem, ok, caso contrário tem mais é que correr atrás.
Outra coisa, nesses exemplos que vc deu, a gente sempre acha a vida do outro mais fácil. O solteiro sente falta de alguém, acha que a vida de casado é mais prazerosa. O casado lamenta não ter tempo para si mesmo, que se fosse sozinho era mais fácil, que antes tivesse ficado só que mal acompanhado...
Oi, Dani!
Seu texto lembrou-me algumas amigas que ficam num reme-reme interminável, tentando colar os caquinhos, acreditando que é possível dar prosseguimento à relação como se nada tivesse acontecido. Loucas! Quebrou, joga-se fora, e trata-se de dirigir o foco para outro lado. É lógico que, quando se é muito jovem, tem-se um ou outro romance de folhetim, mas, como já disse, quando se é muito jovem. A maturidade costuma libertar as pessoas dessas fantasias adolescentes e colocá-las frente a frente com a importância de se ter amor-próprio. Abrir mão de si mesmo, por quem quer que seja, é o mesmo que estar morto. Só faltando deitar na caixa. É aquele ditado: "Morreu, mas esqueceu-se de deitar..." A única dificuldade com a chegada da maturidade é que o grau de exigência fica absurdamente elevado.
Mas, acho que há muita gente que, por diferentes razões, prefere passar a vida com o pézinho na adolescência e a cabeça nas estrelas, como, por exemplo,
mulheres que vivem comparando sua relação com o marido, com a relação de seus filho(a)s com as namorado(a)s... Chose de loque!
Bjs, Dani, e inté!
Taí uma assunto difícil de tratar... e eu fico entre o "ser e não ser" pq estes dias a Lu e a Maria estão de birra uma da outra...rsrs. Será auto-estima baixa?!
Bjos, guria!
Bom finds.
LU MARIA
Gostei muito daqui .... :)
Francisca, os relacionamentos não são fáceis mesmo. E concordo contigo quanto à acomodação. Se não estamos contentes, temos que ter coragem de mudar, e isso não é nada fácil! Dá medo, mas é melhor enfrentar do que viver se lamentando.
Ju, acho que a medida que amadurecemos, vamos nos dando conta que viver de expectativas é o que atrapalha. Devemos apenas viver. Também tenho amigas que "empacam" em relacionamentos nada saudáveis, mas cada um sabe o fardo que pode carregar. São as escolhas de cada um. Adorei o comentário.
Lu Maria, nem me fale. Meus neurônios, o Tico e o Teco, também estão de birra. Será fase? Será culpa dos astros? hehehe. Mas eles já estão fazendo as pazes...
Wagner, obrigada e sejas bem-vindo! Gostei muito do teu blog também, escreves bem.
Beijos a todos.
Interessante, mas sinceramente como uma mulher assim vai ser "firmar" se não partir dela a procura por um tratamento psicologico?
Pois infelizmente, tem alguns homens que aproveitam de meninas sem dó...
Fique com Deus, menina Daniela.
Um abraço.
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