qual sapatoOntem passei metade do dia com dores nos pés. O verão está chegando, os dias estão mais quentes, então resolvi colocar um sapato que comprei no verão passado. Ele é bonito, combinava com a minha roupa e é ideal para esta estação: nem muito aberto, nem tão fechado. Quando o comprei, ele machucou meus pés no primeiro dia de uso. A pele fina e sensível, acostumada com os sapatos de inverno, logo se acostumaria com o couro do sapato. Em seguida, os pés criariam calos e não doeria mais. Mas ele continuou me machucando. Logo que o descalço, sinto o alívio de quem foi “torturado” o dia inteiro por ele, então o guardo no lugar e fico um tempo sem usá-lo. Tempos depois, esqueço da dor do dia que o calcei e retorno a usá-lo. Esquecer é modo de dizer, pois eu sei que os meus pés irão doer, mesmo assim insisto, dizendo a mim mesma que desta vez eu me acostumo com ele. Mas nunca me acostumarei. O mais sensato a fazer é não usá-lo mais e admitir que fiz a escolha errada ao comprá-lo. Existem outros sapatos, muito mais bonitos, e que combinam mais com as minhas roupas e comigo.

Tem vezes que tenho essa mania de insistir em algo que não tem nada a ver comigo, mas que gostaria que tivesse. O porquê eu não sei, talvez seja para eu preencher um vazio do momento, como se fosse a solução. “Empaco” e me mantenho fixa naquele propósito, para provar a mim mesma que é possível e que vai ser legal. É um desafio. Em alguns relacionamentos agi assim, focada no cara como se ele fosse o “último biscoito do pacote”, a salvação dos dias e noites solitários. Bobagem, já diz o ditado: “O amor permanece, os homens é que mudam.” Que é besteira agir assim aprendemos com o tempo, ou não. Tenho amigas que também agem desta forma, até dá certo conforto saber que não sou a única que uma vez ou outra entra na fase “Glenn Close” de ser (para quem assistiu ao filme Atração Fatal, sabe do que se trata), mas quando estamos de “expectadoras” da vida alheia, percebemos a perda de tempo que é. E o tempo é precioso, pena que não o valorizamos. Tudo passa, e não há máquina do tempo para recuperarmos o que perdemos de viver. Damos-nos conta do quanto desperdiçamos as nossas horas depois que a paixão passa, então é como se tirássemos a venda dos olhos e víssemos o outro como ele realmente é, ou seja, uma pessoa “nada a ver”. É tão ruim quando a ficha demora a cair... Apaixonarmo-nos pela idealização que fazemos do outro nos impede de vê-lo como realmente é: com seus defeitos, suas manias e opiniões diferentes das nossas – inclusive a falta de reciprocidade de sentimentos. Não admitir que apenas na nossa mente exista aquele ideal de pessoa criado é o que nos faz fixar no outro.

Cada pé tem o sapato certo. Insistir em usar algo que incomoda, para provar o que nem se sabe o quê, só evitará que se viva outros momentos. Andar descalço também é muito bom. E dar-se a oportunidade de descobrir novos rumos, sem focar em uma paisagem específica, pois há muito de interessante para ser visto, faz do caminho algo bem mais interessante e agradável.

pé descalço

11 comentários:

Daniel Savio disse...

Cara um acaba escolhendo o teu destino, ou como ele vai passar a ser o teu destino...

Fique com Deus, menina Daniela.
Um abraço.

Maha disse...

Dani,

Você realmente sabe escrever com teor e profundidade. Gostei da sua introdução e como passou de uma simples questão cotidiana a assunto complexo.

Texto muito bom!!!

Como diria o grande profeta "isso é masoquismo puro!" by Maha (rsrs)

bjs!!

La Sorcière disse...

Que comparação ótima!!!!
Adorei os sapatos e os amores:)
Tenho sapatos confortáveis e confiáveis;)
Bj

Daniela Figueiredo disse...

Daniel: Sim, todos temos nossas escolhas e somos responsáveis pelo nosso destino.

Maha: Obrigada! Sim, masoquismo puro! Mas todos tem alguma... psicopatologia? (procurei no Houaiss!)

La Sorcière: Que bom que gostaste! Preciso aprender a escolher meus "sapatos"!

Beijos pra vocês.

Daniela Figueiredo disse...

Bah, Lu! Depende da intenção? Eu sempre tenho as piores! Serei masoquista por adorar os sapatos que machucam? Bom, se sim, mereço o sofrimento. Sem comentários, agora... Bjos.

Ogum disse...

Bom, o que eu ia dizer mesmo?Há, esse reflexões me lembraram de um conto do Caio, acho que era isso.
Mas a quanto preencher o vazio... Bem , é... ora... deixa pra lá hehehe.Fofa.

Daniela Figueiredo disse...

Ogum, sobre a parte da crônica que mencionaste no meu orkut, confesso que este é um dos trechos responsáveis por eu amar as crônicas de Caio Fernando Abreu (vou copiar o recado, porque tu continuas escrevendo os melhores comentários lá):
"Ogum:
A tua crônica mais recente me lembra muito o que o que o Caio disse em um conto: "...eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas as coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e dasamar era não mais conseguir ver..."
E eu te digo que é assim mesmo, pelo menos comigo. Eu me identifico muito com a insanidade dele. Caio é profundo, tanto que o vazio dele nunca foi preenchido. Espero que o meu não seja tão profundo assim, hehehe.
Beijão, que bom que comentaste aqui!

ju rigoni disse...

Dani, adorei!

Já estava mesmo com muita saudade de ler os seus posts. Mas, minha amiga, é só começar a chegar o verão... e feriados e fins de semana lotam a minha casa (que fica perto do mar) e o tempo vai ficando curtinho... Durante a semana é aquela loucura: de manhã, colocar a neta para a escola, dar um jeito na casa, atender à mamãe que tem sérios problemas de saúde por conta da idade, e sentar o rabo em frente ao computador... para trabalhar. Eis os sapatos que andam me apertando... Mas eu amo todos esses calos que ele me proporciona!

Quanto aos sapatos apertados a que se refere o post, e levando em consideração a minha idade, eu diria que hoje os sapatos não me fazem calos, mas cócegas. Fiz mestrado e doutorado em calos e hoje não há sapato capaz de me machucar... Os papéis
inverteram-se. Agora, sou eu o calo...rsrs

Hoje em dia, estou calçada em amorosas, tranquilas e confortáveis sandálias romanas... Ui! Que delícia! E, nos pés, sandálias havaianas, claro! rsrs

Bjs, minha querida Dani. E inté!

Daniela Figueiredo disse...

Ju, que bom que me visitaste! Eu também estou sem tempo até para postar algo novo, mas em seguida retorno à minha rotina.
Quanto aos sapatos, concordo contigo: com o tempo, aprendemos que o segredo é ser o calo! Beijos.

Flávio Otávio Ferreira disse...

Fantástica esta crônica. Eu sou do tipo insistente, tanto que acabo vivendo as mesmas coisas quase das mesmas formas; ou seja, sou um sujeito previsível. Amo sapatos velhos, sapatos surrados. Talvez seja uma maneira de manter-se apegado, ou uma forma insegura de se querer seguro. Ótimo texto! Abraço!

Daniela Figueiredo disse...

Obrigada, Flávio! Eu sempre tive problemas com sapatos! Mas concordo, nada como um sapato velho, confortável, e modaldado pelos pés, como se tivesse sido feito especialmente para eles! Beijos.